Parece que foi ontem: eu- adolescente, introvertida, crespa, eleita muitas vezes “a garota mais feia da turma” pelos meus amiguinhos que também tinham 13 anos, abria minha revista Capricho (pasmem, editoras, adolescentes negras também lêem revista), e fazia o exercício de imaginar como aquelas roupas e aqueles acessórios ficariam em mim. Não havia referências concretas nas revistas, na minha escola, na TV – nenhuma mulher negra colocada como ícone de beleza, inteligência, sucesso.
Durante todo esse ano, tenho me dedicado a apurar o olhar para questão da representatividade negra, afinal tenho uma filhinha crescendo junto com um lindo Black Power, talvez por isso fiquei tão impressionada pela falta de representatividade nos stands da Beauty Fair. É nítida a falta de modelos negros, fotos e imagens de negros, o que é compreensível já que, como o próprio nome da feira já enfatiza, é um espaço para a beleza, para vaidade e nossos traços, continuam sofrendo as consequências do racismo e da escravidão. MULHER NEGRA NÃO É SINÔNIMO DE BELEZA.
Nossa imagem é muitas vezes ligada a sexualidade, “negras são mais quentes”, clichê proveniente da imagem da escrava fogosa que fazia sexo com seu “senhor” porque gostava, diferente da realidade de estupros e prostituição em troca de favores necessários a sobrevivência. De volta aos meus 13 anos, quando o carnaval estava próximo Valéria Valenssa surgia na TV , cabelo crespo, alto, pele escura, sorrindo e sambando lindamente, então, eu me reconhecia nela, em seu empoderamento e beleza, não tinha a menor noção do que era hipersexualização, era um prazer vê-la na minha TV, era um prazer quando me comparavam a ela.
Agora, 20 anos depois vi uma chamada na TV e um auê no facebook: Sexo e as negas, né?! Eu não vejo problema nenhum em ver as negras no papel de empregada gostosa, cozinheira, babá, ladra, ou o caramba… Tenho problema quando o que vemos é só isso! A mulher preta tem que ser Antônia (pobre, periférica, sem $$$ pra nada e correndo atrás de um sonho através do RAP)? A mulher preta tem que ser Subúrbia (pobre, periférica, bonita e que foi estrupada pelo namorado)? Resposta… NÃO, A MULHER PRETA NÃO TEM QUE SER ASSIM. Mais uma vez, eu gosto de ver as pretinhas fazendo papel de empregada gostosa, mulher de periferia, etc. Mas será que é tão difícil colocar uma trama com famílias negras (sim, no plural e não apenas uma pra dizer que tem), bem sucedidas, cadê as pretas universitárias, médicas, arquitetas, enfermeiras, etc. Quer dar emprego a atores negros? Deixe que os autores NEGROS contem suas histórias, suas lutas, as dificuldades de seu povo, como nenhuma emissora de TV faz. Onde estão as negras que consomem produtos para cabelo e maquiagem representadas, hein, marcas da Beauty Fair?!
Não se enganem não, gente! É tudo política visual que há muito tempo já é vista e tratada com naturalidade por todos nós, negros e brancos. É comum ver propagandas apenas com brancos ou com 1 negro, e a mídia vai assim perpetuando a idéia de que o negro não consome e que é um cidadão de segunda classe que sobrevive trabalhando com profissões sem expressividade econômica… Aí vem a parte perigosa: nossas crianças e adolescentes escuros absorvendo e acreditando em tudo isso. Acreditando que nosso cabelo é mesmo ruim (afinal não está em nenhum lugar), que status é ter mulher loira e siliconada como as que aparecem nos clipes de funk (porque mulher preta não é sonho de consumo), que jogar futebol, cantar samba ou funk são as únicas profissões em que é possível prosperar financeiramente.
A voz precisa vir de nós. Dos produtores, artistas, maquiadores, cabeleireiros, blogueiras, atores negros desse Brasil afora. Mostrar que a mulher preta é linda, sensual, inteligente e bem sucedida. Valéria Valenssa hoje cuida dos filhos e gerencia sozinha as 3 empresas do grupo do marido, mas essa parte ninguém comenta.

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1 Comentário

Jesus!!!! Esse texto precisa ser mais que compartilhado.
Parabéns, Xan. Vc sempre arrasando quando se fala de empoderamento. Precisamos de mais blogueiras assim.

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